SACRAMENTO E ESCATOLOGIA

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SACRAMENTO E ESCATOLOGIA

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Então se abrirão os olhos dos cegos
e se destaparão os ouvidos dos surdos.
Então os coxos saltarão como o cervo,
e a língua do mudo cantará de alegria.
Águas irromperão no ermo
e riachos no deserto.
(Isaías 35:5,6)

Quando Jesus iniciou seu ministério terreno, atraiu a atenção dos discípulos de João Batista. Os judeus aguardavam a vinda do Messias, o libertador que lhes traria paz, plenitude e salvação. Então João Batista envia seus discípulos a perguntar se Jesus seria esse libertador aguardado. A resposta de Jesus não é um sim ou um não; ele lhes mostra o seu ministério: “os cegos vêem, os aleijados andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e as boas novas são pregadas aos pobres;” (Lucas 7:22).

No Novo Testamento, há duas eras, dois séculos ou dois mundos: a presente era má, regida por Satanás, da qual Cristo nos libertou (2Co. 4:4; Gl. 1:4), e a era futura, da ressurreição e da vida eterna (Mc. 10:30; Lc. 20:35). A era futura seria marcada pelo perdão de Deus e pela presença abundante e vivificadora do Espírito Santo, derramado sobre a humanidade, levando os gentios à conversão e todo o povo de Deus à santidade (Jr. 31:34; Ez. 36:25-27; Os. 2:23; Jl. 2:28).

João Batista certamente entendeu a mensagem: o aparecimento de Jesus inaugura a era messiânica. Estava acontecendo o que deveria acontecer. Desde então, já vivemos os últimos dias — ep’ eschatou tōn hēmerōn toutōn (Hb. 1:1; cf. 1Co. 10:11). Esse é um dos traços mais marcantes da escatologia cristã, a teologia das últimas coisas: ela começa com Jesus e termina com Jesus. Ele é o Alfa e o Ômega.

Os teólogos, ao falarem dessa escatologia inaugurada, se acostumaram a falar em um já e um ainda não. O reino de Deus  é nossa morada, mas ainda não. Vivemos  no mundo vindouro, mas ainda não. O povo de Deus  é um povo santo, mas ainda não. Estamos  livres do mal, mas ainda não. Aquele que crê tem  hoje a vida eterna, mas ainda não. Isso porque se trata de uma escatologia inaugurada, mas não ainda plenamente realizada.

Por isso, a fé cristã aponta tanto para o passado (como anúncio) quanto o futuro (como esperança): ela é sempre a vitória consumada na Cruz e na Ressurreição, e é sempre esperança do tempo vindouro. Todo o ministério da Igreja é ser o elo presente entre o que já aconteceu e o que ainda acontecerá. Cristo é, em nós, a esperança da glória (Cl. 1:27).

Os sacramentos são símbolos vivos dessa dupla realidade. Por um lado, apontam para aquilo que Jesus fez e realizou, quando curou, quando perdoou, quando ceou, quando morreu, quando ressuscitou. Por isso mesmo, nos sacramentos se mostra sempre a tensão entre Presença e Ausência, entre kataphasis e apophasis, entre o já e o ainda não, entre a esperança da glória e as tribulações do tempo presente, entre ser liberto pela Cruz e carregar a própria cruz, entre o Deus que sem mostra e o mesmo Deus que se oculta.

COLOSSENSES 2:12
12 “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.”

O batismo aponta, por um lado, para a redenção consumada por Jesus Cristo no Gólgota e o perdão dos pecados (Rm. 6:3-7). Já na pregação de Pedro o vínculo entre o sacramento batismo e a promessa do perdão de pecados é subentendido (At. 2:38), mas coube ao apóstolo Paulo enunciar esse vínculo como vínculo cristológico: somos perdoados porque no batismo morremos com Cristo. Não estamos mais mortos em Adão, mas vivos em Cristo (Cl. 2:12). Em fé, não pertencemos mais ao mundo decaído, mas ao Reino inaugurado.

Essa justificação batismal e inicial, essa declaração sacramental de perdão de pecados, aponta profeticamente para a justificação escatológica e final (Rm. 2:4-13), o juízo divino em que os salvos ouvirão: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo (Mt. 25:34). No batismo, somos declarados mortos com Cristo, mas recebemos sobre nós também a missão de viver com Cristo. Vivemos já uma vida ressurreta, na esperança da ressurreição futura.

1 CORÍNTIOS 10
16 Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? 17 Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão.

Assim como o Batismo, a Comunhão — a Eucaristia, a Mesa do Senhor, a Ceia do Senhor — nos coloca diante do Gólgota. Quando nos reunimos para partir o pão (At. 20:7) e para partilhar do cálice de bênção, celebramos mais uma vez o acontecimento da morte de Cristo. O simples ato eucarístico já anuncia a morte do Senhor, até que venha (1Co. 11:26). Mas não é uma mera recordação ou anúncio; é uma verdadeira comunhão no Corpo de Cristo, feita pelo próprio Corpo de Cristo. Como nos lembra o apóstolo Paulo, somos um só corpo porque participamos do mesmo pão. Ou estamos todos juntos com Cristo, ou não estamos com Cristo de maneira nenhuma.

O celebração eucarística prenuncia também, a seu modo, o juízo divino. O apóstolo Paulo repreende os coríntios por sua impiedade para com os que nada tem: Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem (1Co. 11:30). Mas mais do que o juízo, a Comunhão aponta para a promessa de salvação e vida eterna, para o vinho novo que Cristo nos prometeu por ocasião da instituição: não mais tomarei deste fruto da videira até aquele dia em que beberei o novo vinho, convosco, no Reino de meu Pai (Mt. 26:29), definitivamente não mais nos odres velhos do mundo presente. É para a ceia das bodas do Cordeiro (Ap. 19:9), para a consumação de seu Reino, que esse sacramento nos aponta.

O que é dito do Batismo e da Comunhão vale também para a Confirmação enquanto promessa escatológica da plenitude do Espírito, para a Ordenação como participação no serviço e no sofrimento do Messias, na Confissão e na Unção dos Enfermos como participação no ministério de cura e perdão de Jesus, e no Matrimônio como símbolo presente da aliança eterna a ser escatologicamente cumprida na reunião do Cordeiro e de sua noiva.

Como vínculo entre o acontecimento passado e a promessa da glória, a lógica dos sacramentos conflita integralmente com teologias que antecipam o “ainda não”, como a teologia da prosperidade (que quer o cristão viva hoje um tipo de plenitude que é parte da promessa futura), o perfeccionismo metodista (que quer viver hoje a plenitude de santificação que só é possível no mundo vindouro), o cessassionismo (pregando o fim dos dons, que só devem acabar escatologicamente), a teologia da libertação (que imagina o fim da miséria e do sofrimento sem uma transformação prévia do homem) e movimentos cristãos místicos que buscam uma espiritualidade despojada do partir o pão.

 

G. M. Brasilino

 


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